Paralelamente à morte de um jovem de 15 anos às mãos da polícia grega, os “media” têm vindo a fazer eco do descontentamento sentido em camadas significativas da população que, aproveitado por elementos radicais, poderá ter contribuído para que se chegasse ao ponto em que estamos hoje na Grécia (insurreição nas ruas, manifestações em permanência, pressão para derrubar o governo de Kostas Karamanlis). Uma das razões apontadas para este descontentamento tem sido a distribuição muito assimétrica do rendimento na Grécia, ou seja, a existência de um grande fosso entre o rendimento recebido pela população de maiores recursos e aquela que menos aufere. Os dados da Comissão Europeia (“
Social Situation Report 2007”, Maio 2008) confirmam efectivamente a Grécia como um dos países europeus com uma distribuição mais desigual do rendimento. Ainda assim, os valores da Grécia são ligeiramente melhores que os apresentados por Portugal. O nosso país apresenta o maior rácio da zona euro entre o rendimento recebido pelos 20% da população com maiores rendimentos e os 20% da população com menores rendimentos (clicar no quadro para aumentar):
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Tem também sido referido o elevado nível de corrupção como um dos principais factores indutores de descontentamento na sociedade grega. Os dados da “Tranparency International” (“
2008 Corruption Perceptions Index”, Setembro 2008) atestam a percepção da Grécia como um Estado muito afectado pela corrupção: entre 31 países europeus, a Grécia, com um índice de 4.7 num máximo de 10, só aparece à frente da Lituânia, da Polónia, da Roménia e da Bulgária. Portugal, também mal classificado, fica ainda assim na 19.ª posição, com um índice de 6.1 (clicar no quadro para aumentar):
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Mas onde a Grécia fica verdadeiramente mal colocada, tanto em relação a Portugal como face ao resto da Europa Ocidental, é na confiança nas instituições, em especial nas duas que têm sido mais postas em causa nos últimos dias por aqui: a polícia e os políticos. Os dados apresentados abaixo, publicados pela GfK (“
GfK Trust Index”, Agosto 2008), são particularmente reveladores. A percentagem dos inquiridos no âmbito deste estudo que diz confiar nos políticos não vai além de 13% no conjunto da Europa Ocidental e de 14% em Portugal. A mesma percentagem é, no entanto, de 9% na Grécia: o valor mais baixo de entre todos os países em análise, incluindo países da Europa central e de leste. Relativamente à confiança na polícia, os valores são particularmente dramáticos: só 42% dos inquiridos na Grécia diz confiar na sua polícia, um valor 20 pontos percentuais inferior ao 2.º pior resultado da Europa Ocidental (França), 33 pontos percentuais pior que os 75% de Portugal (mesmo valor para o total da Europa Ocidental) e apenas superior aos números apresentados pela Polónia e pela Rússia! A Grécia apresenta, de resto, valores consideravelmente inferiores à média da Europa Ocidental para os níveis de confiança em outros agentes fundamentais para o funcionamento regular da sociedade: médicos, professores, forças armadas, advogados e gestores (clicar no quadro para aumentar).
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Os elevados níveis de corrupção da Grécia podem pois estar a contribuir para cristalizar uma distribuição bastante desigual do rendimento disponível. Mais: têm minado a confiança dos cidadãos no seu Estado, levando a um cepticismo generalizado e extremo face ao funcionamento das instituições. À luz destes factos, a explosão anarquista registada nos últimos dias na Grécia, detonada pela morte do jovem Alexandros Grigoropoulos, parece mais fácil de entender.
P.S.: Uma ressalva que tenho que referir aos meus colegas gregos sempre que comparo a Grécia e Portugal. A minha imparcialidade não é afectada pelo sucedido num certo Junho de 2004, em Lisboa. Pelo menos de forma consciente.