domingo, 30 de março de 2008

A noite passada

A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"

Letra e Música: Sérgio Godinho
Álbum: Pré-histórias (1972)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O dia em que Atenas parou


Poseidonos, em plena hora de ponta. Foi nesta segunda feira.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

sábado, 16 de fevereiro de 2008

"Os sítios horríveis"

Crónica de Paulo Moura no Público de ontem:

"Numa das minhas primeiras viagens pela Europa conheci duas portuguesas, de Benfica, e pensei que fosse divertido andarmos juntos. Quando chegámos a Roma, fiquei fascinado, mas elas só diziam: "A mim, quem me tira Lisboa, tira-me tudo."
Descemos depois até Nápoles, atravessámos de barco para a Grécia, entrámos na Macedónia e, daí, dirigimo-nos à Turquia. As minhas companheiras divertiam-se, mas, depois de termos visitado Atenas, Salónica e Istambul, acabavam sempre por proferir a frase fatal: "...mas a mim, quem me tira Lisboa, tira-me tudo."
Eu também gosto de Lisboa. Gosto da luz e do caos, da água e do devaneio. Gosto de viver aqui. Mas, quando estou fora, não penso muito em Lisboa. A viagem, para mim, é uma experiência mediúnica. Serve para sair do corpo, para me transportar, não apenas para os lugares onde vou, mas para territórios verdadeiramente estrangeiros. Sítios tão estranhos, que eu próprio me torno estranho.
Não há sensação como essa. É doce, plena, luxuriosa. Embora um pouco pateta. Não há nada de transcendente em Roma, Atenas ou Istambul. Nem sequer em Bagdad, Grozni ou Cabul. Ou menos ainda nestas últimas. Quem vive lá, acha geralmente esses locais enfadonhos, ou mesmo insuportáveis. As pessoas com quem mais me identifico nos locais com que mais me identifico são as que querem fugir de lá. Como o explicar?
É duro admitir isto, mas não há qualquer relação entre a beleza dos lugares e a paixão que sentimos por eles. Ou melhor: há. O nosso fascínio é tanto maior quanto mais horrível é o sítio. É nas paragens verdadeiramente hediondas que sentimos a emoção, o enlevo, o frémito da aventura. Tal só é possível porque acreditamos nos mitos mais estúpidos. O deserto, por exemplo. Como é que nos deixámos convencer de que aquilo é interessante? No deserto só há areia e bichos, muito calor ou muito frio. Quando há humanos, há problemas. Quem lá habita não pára de se queixar. O mundo árabe é belicoso, dictatorial, discriminador das mulheres, a África é pobre, suja, doente, violenta. Até as praias tropicais, ou são miseráveis ou um inferno de turistas. Não há nenhum lugar que realmente valha a pena. E se há algum a que não falte nada, falta-nos a vontade de o visitar.
Para que sair, portanto, de casa? Mal por mal, fiquemos quietos. Amemos o que é nosso. É o que fazem os minimamente sensatos. Os muito sensatos, porém, não se dão ao luxo de serem tão passivos: viajam para confirmar que a sua terra é a melhor de todas.
Era o caso das minhas companheiras portuguesas. Percorriam os países de lés a lés, calcorreavam as cidades, e, no fim, diziam: "Gostei muito, mas a mim, quem me tira Lisboa..."
Eu não aguentava aquilo. Impedia-me de viver a minha viagem, não sei porquê. Era como querer levantar voo mas ter uma âncora no pé.
Foi em Istambul que as abandonei, e só depois consegui realmente compreender a cidade. Ou acreditar que compreendia. Percebi também que é difícil encontrar bons companheiros de viagem. Viajo quase sempre sozinho."

José Cardoso Pires




Não é todos os dias: uma nova editora (edicoes-nelsondematos), que arranca com um livro inédito do meu escritor de eleição. Ele há notícias felizes...

Mais aqui.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Prazeres da Paternidade

Ontem chego a casa depois de um dia de trabalho. O meu filho põe o ar mais solene do mundo e, do alto dos seus 4 anos, afirma sem pestanejar: "Papá, estou apaixonado". Engraçado, o primeiro amor, penso eu. Hoje, após uma desavença com a mãe, ameaça ir embora quando os crescidos estiverem a dormir. Para casa da pequena.

A coisa é séria.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

domingo, 27 de janeiro de 2008

Hino ao Sportinguismo

Especialmente nesta noite, vale a pena (re)ler "Irei sempre ao futebol contigo", crónica de Daniel Sampaio, publicada há uns anos na extinta revista "xis", do Público, e re-publicada no livro "Árvore sem Voz", que reúne alguns dos textos do autor. E eu a querer ter estado no estádio, com o Pedro...

“Não, é claro que irei buscar o meu Pai, o futebol tem pouco sentido sem ele. Não importa que esteja doente. Tenho trinta e cinco anos, entro na idade em que o meu Pai dizia que era preciso ter um rumo para a vida, tenho a certeza de que não o desiludi. Sou engenheiro de sistemas, nunca estive desempregado como agora acontece a tantos colegas meus, ganho bem. Tive muitas namoradas mas casei com a que amei, não era a mais bonita mas foi a única que me serenou. Tenho pena de não ter um filho rapaz, mas as meninas dão-me uma alegria enorme.
O meu Pai adoeceu há três meses. Tumor maligno do cólon, como consegui arrancar do médico. Ainda hoje sonho com o hospital: médicos apressados sem falarem connosco, enfermeiras dedicadas mas sem tempo, paredes esburacadas, pessoas a morrer ao pé de nós. O Pai parecia não sofrer, só quando perguntava pelas netas ficava mais triste. A Mãe esteve sempre ao pé, uma das coisas boas que me deram foi a tranquilidade do seu amor. A operação correu bem, disse o médico de telemóvel sempre a tocar, não consegui perguntar se o Pai podia morrer em breve, nada mais me surgia na cabeça, por isso achei melhor ser outra pessoa a falar.
Passei a vê-lo mais vezes. Dantes dizia que não tinha tempo, fingia não reparar no seu olhar um pouco crítico, arranjava desculpas para o atraso das minhas visitas. Agora é diferente, saio a correr da empresa e dou um salto à minha antiga casa. O Pai está no escritório rodeado de livros. A Mãe é que parece diferente, dantes tinha sempre coisas para fazer, arrumações, telefonemas, nestes momentos em que os procuro aparece de repente em silêncio ao pé de nós, pergunta se quero tomar alguma coisa, na verdade acho que vem apenas ver como está o Pai.
O Pai está doente, ponto final. Não quero falar disso. Nunca tinha pensado nessa hipótese, foi sempre tão enérgico, nunca o ouvi queixar-se de cansaço, nós é que nos fatigávamos só de o olhar. Agora está diferente, a sua expressão perde-se nas cadeiras do escritório, nos romances que toda a vida amou, nos velhos quadros da parede. Não pergunta nada sobre o tumor, nem sobre os filhos, só quer falar da escola das netas e dos presentes de Natal. Hoje nada consegui dizer, só me vinha à cabeça a ideia de que seria a sua última passagem de ano, tentei disfarçar mas acho que ele percebeu.
Vamos ao futebol, Pai? É claro que sim, vou-te buscar uma hora e meia antes, como sempre, nunca percebi porque queres ir tão cedo, não gostas de beber cerveja nem de comer entremeada, tenho a certeza de que é o ambiente que aprecias, os jogadores no aquecimento, os comentários dos colegas de bancada, até as castanhas que compras quase sempre. Que interessa a doença? Por acaso não consegues andar? A tua vista está afectada? O teu coração fraqueja? Claro que não, só noto em ti o tal olhar diferente, mas isso deve ser um problema meu. O médico não disse que vais ficar curado e que tudo tinha sido descoberto a tempo, num exame de rotina?
O Sporting vai ganhar, vais ver, ficas contente. Sairemos do estádio a comentar os lances, perguntarás mais uma vez, ao pé do pão quente, se não estarei com fome, desta feita sou eu que te dou boleia, não precisas preocupar-te porque não irei aos saltos no banco de trás, sou grande.
Um dia serás velhinho e partirás. Não por causa desta doença que ambos receamos, mas que vais vencer. Será apenas pela ordem natural das coisas. Quando esse dia chegar, não te preocupes à mesma, eu irei ao estádio e tenho a certeza de que, embora ninguém veja, estarás ao meu lado a comentar os golos do nosso clube.”

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Felicidade

"The World Database of Happiness, in Rotterdam, collects all the available information about what makes people happy and why. According to the research, married, extroverted optimists are happier than single, pessimistic introverts, and Republicans are happier than Democrats. Nurses enjoy life more than bankers, and it helps to be religious, sexually active and a college graduate with a short commute to work. The wealthy experience more mirth than the poor, but not much. Most people say they are happy, but perhaps that is because they are expected to be."

Mais aqui.

sábado, 19 de janeiro de 2008

"Voltem, estão perdoados"

"É possível que, em grande parte, a reabilitação dos 80s se deva ao primeiro confronto de uma geração (a que estava a crescer nessa década) com o seu passado – a noção de que chegou a uma idade maior, já tem tempo de vida suficiente para poder falar de passado."

Kathleen Gomes, "ípsilon" (suplemento do Público), 18 Jan. 2008

sábado, 12 de janeiro de 2008

Turista vs. Viajante

"Há essa velha questão sobre os turistas e os viajantes, que Garland explorou até ao enjoo em “A Praia”. Turista é alguém que só vê o que a agência de viagens preparou para ele. Desloca-se, geralmente em manada, de cliché em cliché, descobre, cheio de deslumbramento, aquilo que já estava farto de saber, vive a alucinação do que pensa ser uma aventura e regressa carregado
de episódios mesquinhos, quase sempre relacionados com a própria logística da romaria, como o incómodo de ter perdido as malas ou os contratempos da alfândega. O turista não viaja.
O verdadeiro viajante é um ser de outra espécie: ele mergulha na realidade dos lugares, convive com as pessoas autênticas, deixa-se afectar pelo que é estranho, inesperado."

Paulo Moura, in "ípsilon", suplemento do "Público". Análise ao livro "Shantaram", de Gregory Roberts, em que o autor narra a sua vida nos bairros de lata de Bombaim e numa aldeia indiana, depois de ter fugido de uma prisão australiana
11 de Janeiro de 2008

Horas Extraordinárias

Foi a saudade do teu braço
e o olhar que já da tua luz me dói
trabalhei sem dar pelo cansaço
horas extraordinárias, foi
um dia que passou num furacão
um furacão que se amainou, só
quando aparte o amor eu me vi só
atirando a moeda ao ar
diz-me que cara ou coroa eu vou ganhar
diz-me quanto eu fiz bem em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias

E assim que volto ao meu lugar
reencontro com dor e prazer
o coração que fiz falar
à máquina de escrever a ver
ela a dar corda à máquina de amar
e um coração a se amainar só
quando aparte o amor eu me vi só
atirando a moeda ao ar
diz-me que cara ou coroa eu vou ganhar
diz-me quanto eu fiz bem em me apostar
e que bem fiz em ter por necessárias
as horas extraordinárias

Letra e Música: Sérgio Godinho
Álbum: Coincidências (1983)